Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Imprevistos acontecem, a ode dos maus gestores.

Fantasiados pelas vestes do mal planejamento, os imprevistos costumam ganhar a fama de grandes culpados pelo não atendimento das metas previstas para muitos projetos. Como se fossem ‘portos seguros’, eles abraçam muitas falhas, estas, sim, as causas maiores pelos fracassos. Na verdade, uma bravata sem tamanho que costuma morar nas cabeças daqueles que, durante o desenvolvimento de qualquer atividade, já ficam pensando nas justificativas que serão dadas por conta do não atendimento do que lhe foi confiado. Uma constatação.

Diante desse espectro, a frase “imprevistos acontecem” ganha contornos assustadores, não por sua veracidade, mas principalmente, pelo crime maior da falta de ações mitigatórias e/ou propostas alternativas. Estas sim são as que permitem blindar qualquer projeto do fracasso retumbante. A regra é clara e de uma simplicidade verbal que beira a infantilidade. Se os “imprevistos acontecem” logo sua ocorrência é prevista, bem como os resultados potenciais por eles causados. Desta forma, é inviável culpa-los pelo não atendimento de metas, a não ser, obviamente, sob olhos de oportuna miopia. Sim, a incompetência sofre de problemas de visão.

Tendo trabalhado em projetos de construção civil durante muitos anos, me recordo bem  sobre as barragens em projetosde usinas hidrelétricas. Suas dimensões eram definidas para suportar períodos de chuvas e/ou cheias dos rios, superiores a mil anos de acordo com base histórica ciclíca que pontua esta questão. “Ah, mas, se ainda assim, por conta de supreendente mudança de condições climáticas , chover mais...” pode questionar alguém. Pois bem, ainda que a palavra surpreendente pareça soar como sinônimo de imprevisível, neste caso, qualquer hidrelétrica possui algo que chama vertedouro. Esta área é dimensionada de forma a evitar a ‘sangria’ da barragem, que é quando a água pode sobrepo-la. Ainda assim, a elaboração de planos mitigatóriostem o intuito de reduzir ou até mesmo anular a ocorrência de quaisquer danos.

No dia a dia de qualquer pessoa a mesma lógica pode e deve ser considerada. Ao agendarmos um compromisso muito cedo com alguém, a possibilidade de falha decorrer de vários motivos. Desde uma noite mal dormida por conta “daquela saidinha” animada que se prolongou e/ou até mesmo de um carro, cujo abastecimento foi deixado de lado e/ou do tráfego local, acima do normal, por conta de um acidente. Todas situações claramente identificadas e previsíveis, e cujos desdobramentos podem ser mitigados também, de diversas maneiras. Em situação similar, até mesmo uma reunião no colégio do filho, que tenha, de forma inesperada, se prolongado, não pode entrar no hall da imprevisibilidade. Sabedores que atrasos acontecem, agir de forma preventiva não passa a ser zelo, mas sim um prova de eficiência em busca de algo tão importante, a eficácia. Da união delas surge a excelência.

Infelizmente, muitos de nós, somos rápidos em culpar o acaso por nossos fracassos. Talvez seja algo quase cultural que costuma se impregnar na mente de tantos, associando de forma preocupante o comodismo, o baixo comprometimento e a incompetência. A menos que saibamos reconhecer que as falhas se resultam em boa parte das vezes, de nossas próprias açoes, dificilmente aprenderemos com nossos erros. Sendo assim, o ciclo virtuoso que envolve a exatidão com que podemos atender boa parte de nossas ações e projetos decorre de questões muito básicas de gerem geridas, o planejamento certamente é uma delas. A boa gestão, outra. Mas a maior mesma é o pleno descarte do “imprevistos acontecem” como uma boa e salvadora razão aos infortunios que nos confronta.