Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O Calcanhar de Aquiles dos Processos Seletivos na Era do Conhecimento

Ainda que estejamos na chamada ‘Sociedade do Conhecimento’, algo previsto por Peter Drucker ainda nos primórdios dos anos 1970, segundo o qual a valorização profissional se faz presente por conta da competência apresentada, entendida como o conhecimento na prática, a contratação de profissionais costuma estar suportada por processos seletivos tradicionais que pouco têm evoluído ao longo de décadas, em pleno disparate com os conceitos compartilhados pelo austríaco, considerado o pai da administração moderna. Os primeiros passos se mantêm fundamentados pelo uso de indicações, com a estreita subjetividade abraçada pelas relações vividas e/ou pelo recebimento de currículos, normalmente enraizados na saborosa receita de títulos e certificações.

As indicações, requentado bolo com sabor de networking, costumam estar intimamente ligadas as questões pessoais, que pouco, ou quase nada têm a ver com a identificação de efetiva competência para os cargos a serem preenchidos. Por conta disso, não é raro que muitos acabemos por indicar aos responsáveis por desejadas vagas profissionais o ‘amigo de um amigo’, um parente, um ex-colega de trabalho ou pontualmente ‘alguém com quem mantemos algum tipo de relação amizade’, sem que haja uma maior atenção quanto a presença de alinhamento entre o candidato e o cargo almejado. Cá entre nós, ainda que recebamos estes pedidos e muitos tenhamos aquela necessidade, pontual ou não, de colaborar com este intuito, me soa deveras equivocado que indiquemos alguém sobre o qual tenhamos tão pouco conhecimento sobre seus desempenhos profissionais. Eis que isto não tem qualquer relação com ‘ajudar ao próximo’ tão pouco com a falível verdade, ‘um dia pode ser que eu precise da ajuda dessa pessoa, diante disso, irei ajudar’. Indicar um profissional é algo que demanda muita responsabilidade, um peso que recai sobre nossas costas, sobretudo em caso de insucesso. É coisa seria, ou ao menos, deveria.

De forma similar, me causa uma estranheza sem tamanha, o recebimento de currículos repleto de informações suportadas na inocente ciência das apetitosas descrições feitas por quem tanto precisa de uma colocação, e, acreditem, a necessidade acaba por transformar muito as pessoas, ainda que de forma extremamente incipiente, ou até mesmo, algumas vezes, elaboradas por profissionais que foram contratados justamente para transformar um pombo caolho em um belo e instigante pavão. É sabido, tacitamente, por muitos de nós, que as organizações costumam informar aos desejosos por um emprego, algo parecido com “armazenaremos seu currículo em nossa base de dados”. Afirmar seria algo muito cruel, mas confesso ser difícil imaginar que uma empresa vá encontrar o profissional que realmente irá atender as suas demandas, através do uso de sistemas de buscas, a partir da descrição de uma palavra chave estrategicamente colocada por conta de uma taxonomia bem feita.

Se é fato, que o recebimento de indicações e currículos sejam considerados apenas como o início de um processo seletivo, uma vez que muitos passos serão dados antes da efetivação de uma contratação, também é verdadeiro afirmar que a perpetuidade desse modelo, mais pelo fato de tanto já tenha sido mudado nas verdades que fundamentam o mundo corporativo, seja algo temerário que também muito contribui com a drástica redução do tempo médio de permanência dos profissionais nas organizações. Ao que parece, muito mais que a impetuosidade da busca por novos desafios, os erros de contratação são os hits do momento no mundo corporativo. Mudar os mantras que fundamentam os processos seletivos parece ser um caminho sem volta e uma prova inconteste da busca pela causa e não dos efeitos.