Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Os pecados que não cometi, mas precisei confessar

O sacramento católico é um ato destinado aos seus fiéis. Definidos por Jesus Cristo, eles têm como propósito serem meios de comunicação com a vida divina. Para os católicos, são sinais que transmitem a graça de Deus. Ao todo são sete: Batismo, Penitência (Confissão), Eucaristia, Crisma, Matrimônio, Unção dos Enfermos e Ordem.

Como aluno salesiano do Colégio de Santa Inês, desde os primeiros anos já fui “catequisado”, sobretudo durante as aulas de Religião, à respeito da importância de dois deles: Penitência e Eucaristia. O primeiro deles, o Batismo, era quase que uma exigência para se matricular na instituição, afinal apenas ele faz uma pessoa se tornar filho de Deus por adoção em Jesus Cristo.

1980 marcou a minha vida católica como o ano quando recebi estes dois sacramentos. O primeiro deles, a Penitência, era a chamada Confissão, uma condição essencial para que pudéssemos fazer a Eucaristia, sacramento que nos permite receber a hóstia, o símbolo do corpo de Cristo. Fomos orientados de maneira cuidadosa a pedir perdão de nossos pecados perante um padre, que naquele momento representaria Cristo, a quem caberia definir a penitência, de alguma forma uma reparação aos danos causados pelo pecado. As freiras da escola nos alertaram a evitar usar “palavras feias” a ele.

Eis que chegou o grande dia. Uma longa fila ao lado de fora da igreja da escola. Todos quietos e, de certo ponto, preocupados pelo que viria a seguir. Creio que o maior temor estivesse ligado diretamente ao tamanho da penitência a ser recebida. De certa forma, prestávamos atenção com o tempo que cada um dos colegas saía do espaço do confessionário.

Na minha cabeça já estava bem claro o que iria falar, mas ainda assim, minhas mãos estavam geladas. Falar para um “estranho” os meus pecados, me soava muito esquisito, ainda mais por conta daquele “papo” de encarar aquele senhor, com o cargo de padre, de representante direto de Cristo. Devo admitir que passou pela minha cabeça, perguntar a ele, porque Cristo não estava ali pessoalmente e resolvera mandar outra pessoa em seu lugar. “Me chame o seu líder” pensei.

Imediatamente à minha frente na fila estavam Jorge e Cléber, dois amigos que, acreditava, passariam muito tempo diante o padre. Ledo engano. Não demorou muito para que chegasse a minha vez. Lá estava eu sentado frente a frente com o representante de Cristo.

Meus pecados eram óbvios. Passei a relatar, meio que gaguejando, as inúmeras brigas com minha irmã Alexandra. Não mais de um minuto se passou, logo me calei. O padre pediu que eu continuasse. “Seo Padre, meus pecados são apenas esses mesmos” reiterei meio preocupado diante da possibilidade dele achar que eu estava mentindo.

O padre insistiu: “mas você não fala palavrão? Ou briga com seus colegas? Ou faz alguma danação na rua?…” O portfólio de pecados destacados pelo padre se prolongou por alguns minutos, a ponto de, ao final, eu achar que os meus pecados eram de ‘meia tigela’. Diante da insistência, resolvi incluir mais uns dois, no caso três pois estava mentindo, ao aumentar a lista. Apenas após isso passei a considerar que tinha uma lista ‘legal’ de pecados.

Três Padre Nossos e três Ave Marias, esta foi minha sentença, chamada penitência. Após o devido pagamento, me senti puro, ainda que meio injustiçado, ao saber depois que todos tinham levado a “mesma punição”. À noite, minha mãe perguntou como tinha sido a confissão. Todo pimpão, arrematei, diante olhos maternos arregalados “… não posso contar, pois a confissão deve ser mantida em segredo, mas o padre me passou uma lista bem legal de pecados…”.