Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Porque pessoas manipuladoras, são muito adoradas

Pessoas que distorcem certa realidade vigente de forma a transparecer um cenário difuso sobre o qual poderão levar alguma vantagem, esta é a definição que encontrei para os manipuladores. Diante um ponto de vista puritano, o conceito possui uma íntima ligação com aqueles de caráter duvidoso ou, ao menos, que comungam de valores, digamos, poucos republicanos. No entanto, a verdade possui várias faces e muitas delas conseguem conviver em plena harmonia sem que haja qualquer intuito a prejudicar quem quer que seja.

Uma católica fervorosa, minha avó Noelzinda costumava ir à missa duas vezes por semana. A primeira delas, na quarta-feira, logo após o curso de eucarístia ministrado aos alunos do colégio Henriqueta Galeno, localizado no bairro da Vila Manoel Sátiro, em Fortaleza, onde era diretora. Ao final da missa, sempre cabia a um dos pais de seus alunos levá-la de volta para casa, alguns quarteirões dali. Já no domingo, ainda que fosse muito querida no bairro, os encontros que eram promovidos ao redor da praça, onde a igreja se localizava, tornava menor o número de possibilidades de carona. Sabida, minha avó já se antecipava aos netos e falava: “Quem quiser me acompanhar hoje na missa, vai poder ir comigo amanhã no centro da cidade.” Era a senha, para um fato costumeiro. Minha avó não gostava de troco e por conta disso, quem a acompanhasse poderia ficar com o troco todo para si. A verdade não era tão exata assim, pois se ela notasse que o troco fosse de maior valor, ela acabava por recolhê-lo. Adorável manipuladora, todos caíamos de bom grado e logicamente sedentos por aquele dinheirinho que, naquele tempo, era tudo o que nos restava.

Priscila era uma profissional muito conceituada. Já com certa experiência no mercado, tinha um bom papo e dispunha de certas competências interessantes para atender suas metas. Mantinha em sua equipe formada em sua maioria por profissionais seniores, alguns bem mais jovens sobre os quais exercia uma notória influência. Enquanto mantinha uma relação mais técnica com os mais experientes, baseada por discussões e conquistas pontuais, o envolvimento com os mais novos era bem diferente. Costumava sair com eles sob a chamada: “Vou almoçar com meus meninos”. Sabida, Priscila tinha ciência que no dia a dia profisisonal eram eles que estavam mais próximos dos demais membros da equipe, sobre os quais sua influência era bem menor. Manter os ‘meninos’ perto fazia parte de uma estratégia para se manter muito bem informada sobre tudo o que acontecia. Em troca lhes dava o orgulho de ‘ir almoçar com a chefe’, uma doce ilusão que tende a nos embriagar, sobretudo, no começo de nossas carreiras. Adorável manipuladora, todos caíam de bom grande e logicamente sendentos por alguma promoçãozinha que poderia daquilo resultar. 

Após saírem de um show da Regina Casé, ainda nos anos 1990, em uma antiga casa de shows chamada Palace, no bairro de Moema, em São Paulo, aqueles três irmãos saíram para jantar em uma pizzaria próxima. Ainda que o clima fosse amistoso, o caçula deles estava aborrecido. Motivo, a atriz global tinha brincado publicamente com ele e ao se despedir no microfone o “agradeceu por sua ignorância”. Lá chegando, acabei por pegar, inadvertidamente, o menu de suas mãos. Sem grandes consequências, o silêncio se manteve. Foi quando o mais velho deles recolou o tema em voga: “Não acredito que você tirou o menu da mãos do menino”. ‘A Segunda Guerra Mundial’ se instalou no meio do restaurante, com o caçula, menor de idade, se evadindo do local e sumindo pelo bairro, distante de sua casa, no meio da escuridão. Após horas do fato, o reencontro foi tenso, com o mais velho, gatilho da situação, soltando ofensas sobre os outros dois. Ao chegarem em casa, o que se viu foi o surpreendente choro compulsivo do mesmo, em meio aos abraços dos pais que ressaltavam: “Você fez tudo que estava ao seu alcance, realmente falhamos com seus irmãos”. Não demorou para que todos se reunissem em um grande abraço regado pelas lágrimas do adorado primogênito.

Apenas três pequenos exemplos, assim como tantos outros que todos compartilhamos diariamente. Alguns mais, outros menos intensos, mas com muita coisa em comum. Se formos considerar o conceito apresentado no começo do texto, há pouca, ou quase nenhuma diferença entre as atitudes tomadas por minha avó, Priscila e o primogênito. Todos manipularam uma situação em prol de algum benefício próprio. Todos adorados por aqueles que eram ‘vítimas’ de seus atos. Muito possivelmente pela falta de ciência dos mesmos sobre o quanto estavam sendo usados. Mas o fato é que, quem manipula precisa usar de certos artifícios para que suas ações alcancem os resultados esperados. Caso contrário, a manipulação não se completa. Sendo assim, embora a causa raiz vivida em cada uma das situações se diferencie muito, na primeira uma senhora de idade querendo uma carona, em outra uma gerente articulando uma melhor maneira de manter sua equipe sob controle e por fim, o primogênito, gatilho da cizânia, que quase provocara um desaparecimento, o que manteve o sucesso dos manipuladores foi justamente a admiração de suas vítimas. Cientes ou não, é isso que mantém qualquer relação abusiva, aquela alimentada e mantida pela manipulação. Por fim cabe ressaltar que ainda que os manipuladores sejam adorados, uma verdade pétrea para existência deles, acredita-se que nem todas as pessoas adoradas são, necessariamente, manipuladoras. 

Em tempo, minha avó sempre foi muito amada por todos e ainda é em nossos corações e memória. Já Priscila, deve estar bem, obrigado. Quanto ao primogênito, faz algum tempo que não falamos.