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Falando do Interior

Nessa seção, Paulo Francis Jr. jornalista, residente em Presidente Venceslau, do Jornal Integração publica interessantes textos com uma especial visão de quem vive no interior.

 

Visite os idosos de sua cidade

 

Ao subir num ônibus urbano, um homem idoso escorregou e perdeu um sapato. O veículo arrancou rapidamente e não podia mais parar, ficando-lhe impossível recuperar o calçado. O ancião tranqüilamente retirou seu outro sapato e jogou-o pela janela. Um jovem que a tudo observara lhe perguntou: “Por que o senhor jogou fora seu outro sapato?” “Para que, quem os encontrar, possa usá-los”, respondeu. Apenas alguém necessitado dará importância a um sapato usado perdido na rua, mas de nada lhe adiantará se não tiver o par completo.

A passagem consta de um estudo especial utilizado por algumas igrejas para reforçar a importância do idoso na sociedade. Não é só o tempo e a experiência adquirida que traduzem a fundamental importância destes cidadãos na sociedade. É também através deles, que as inúmeras gerações são aperfeiçoadas com a transmissão de conhecimento. Outra: a bondade é uma das características mais marcantes que um idoso deixa para a juventude.

Talvez eu e você estejamos inseridos nesta mensagem agora, ou faremos parte deste grupo mais adiante. Porém, não nos preocupemos exatamente com a velhice. O essencial, acredito, é refletir no amadurecimento que a idade propicia a cada um. Se pensarmos direitinho neste processo adquirido pelo tempo, ganhamos sabedoria plena pela vivência, embora as limitações comecem a dar o sinal da sua graça pelas debilitações físicas que moldam a vida do cidadão de “certa idade”. Há um júbilo especial em saber que o idoso tem ganhado espaço especial na sociedade. Tão importante até como consumidor. Como gerador de renda! Até os empresários e publicitários passaram a compreender isso. Estão investindo alto com chamadas especiais dirigidas para o este público, o que certamente redunda em algum lucro.

No final de tarde da última segunda-feira fui caminhar por Venceslau. Como saio sem rumo, resolvi passar na frente do Abrigo Esperança. Lá, bem próximo ao portão de entrada, na Rua Prestes Maia, um pintor estava concluindo um letreiro que informava sobre os dias e os horários de visitação. Parei alguns minutos e me veio à memória o quanto aquele lugar passou por transformações. E o quanto é imprescindível para todos nós! Encravado num fundo de vale, anteriormente a região era composta basicamente por frondosos eucaliptos. No meio, uma grande erosão caracterizava a área. Depois, uma enorme tubulação de águas pluviométricas resolveu o problema. Tive o prazer de residir bem próximo ao local por mais de 40 anos. O terreno da minha residência “fazia” fundo com o abrigo de idosos.

Recordo-me de que lá a água era retirada de um poço através de antiga bomba manual rudimentar que funcionava impulsionada pelos movimentos contínuos de uma alavanca por força muscular. A primeira construção era de madeira, bem próxima a uma capela na Rua Cuiabá. Lembro-me com emoção que o tilintar do sino daquela pequena igreja anunciava o falecimento de algum ancião, cujo corpo era levado até lá para a cerimônia fúnebre. Juntamente com os meus pais, passava por entre os arames de uma cerca, e testemunhava as orações que eram feitas ali. Outra cena de que não me esqueço: os idosos cortavam os cabelos ao relento, numa pequena cadeira de madeira, cobertos por um lençol. Da minha casa eu podia ver tudo! Também plantavam milho e mandioca. Criavam frangos, bois e porcos numa grande pocilga. Volta e meia ia até lá observar os novos leitões!

O local era extremamente calmo e acolhedor. No entanto, era agitado uma vez por ano pela voluntariedade e o amor do saudoso apresentador sertanejo Osmar Pacito. No dia das Mães, ele levava as duplas caipiras para se apresentarem no local, transmitindo o evento pela Rádio Presidente Venceslau. Em parceria com o comércio, distribuía presentes à mãe mais idosa, à mãe que tinha mais filhos etc.. Numa das vezes em que estive presente testemunhei a entrega de um brinde a uma mulher que tinha 21 filhos. As pessoas que lá compareciam também levavam todos os tipos de alimentos para o abrigo, contribuindo na sua manutenção. Entre os cantores que se apresentavam ali estavam a Dupla Liveira e Liveirinha, Piere de Sá e Zé de Zé, João Miranda e Maradona e o falecido instrumentista Nico Moré, com o seu impecável violino. Vários prefeitos da cidade e de municípios vizinhos costumavam aparecer por lá neste dia ou falar alguma mensagem via telefone!

A lembrança especial fica por conta dos enlaces que aconteciam ali. Os idosos também se casavam entre si! Viúvos e viúvas contraiam matrimônio para amenizar a solidão, sempre caracterizada neste período. Era bonito ver homens e mulheres de cabelos brancos andando pelo pátio do abrigo de mãos dadas. Que visão deslumbrante!

Não escrevo estas linhas a mando de ninguém, a não ser da minha consciência. Se eu posso ajudar com essas palavras e lembranças, você pode auxiliar de outra maneira, quem sabe materialmente. Não perca a oportunidade de fazer o bem.

Visite o Lar ou Abrigo de Idosos de sua cidade.

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