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Falando do Interior

Nessa seção, Paulo Francis Jr. jornalista, residente em Presidente Venceslau, do Jornal Integração publica interessantes textos com uma especial visão de quem vive no interior.

 

 

Na sala de espera

 

 

O calendário continua sua implacável trajetória. Já estamos em dezembro de 2009. Para chegar até aqui, de alguma forma, eu e você tivemos que testar a nossa paciência e esperar.

Aguardar por alguém ou por alguma coisa é algo que mexe psicologicamente com as pessoas. Quando ainda crianças tínhamos ansiedade para chegar aos 18 anos, o que teoricamente, demorou além da conta. Embora não haja diferença entre as horas do passado e as horas do nosso tempo, creio que hoje os relógios estão numa velocidade muito maior. Pelo menos deixam esta impressão! Começamos a semana e logo já é sexta-feira! Agora, qual a medida apropriada para esperar alguma coisa? É sabido por todos que, dependendo da situação pela qual estamos passando, aguardar pode ser um tormento.

As opiniões sobre a espera são bastante interessantes. Famosos e anônimos têm visões chamativas sobre isso. Millôr Fernandes diz que: “Pontual é alguém que resolveu esperar muito.” Já Oscar Wilde afirmou certa ocasião que “Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida.” O renomado escritor Paulo Coelho foi conciso no seu livro “Veronika decide morrer”: “Os dois testes mais duros no caminho espiritual são a paciência para esperar o momento certo e a coragem de não nos decepcionar com o que encontramos.” Já o intelectual do povo Marcelo A. Pereira, vai mais fundo nesta análise: “O que vale a pena possuir, vale a pena esperar”.

Não sei há quanto tempo foi escrita a derradeira frase do parágrafo anterior, mas, foi a este pensamento que Jacó se apegou. Na Palavra de Deus, Jacó viveu parte da sua vida com este propósito. Relembremos que ele trabalhou sete anos como pastor para Labão em troca do direito de se casar com Raquel. Na noite de núpcias, porém, Labão vestiu Léia de noiva e véu e a trouxe a Jacó. Quando ele descobriu na luz do dia a decepção, o matrimônio já tinha sido consumado. Jacó então aceitou o artifício de Labão trabalhando outros sete anos para se casar com quem ele amava.  Diversos copiadores escribas descreveram Raquel como “bonita na forma e bonita de aparência”. Na verdade, ela recebeu a beleza da linhagem de Sara. Com estas qualidades, Jacó sabia por quem estava lutando e esperando por tantos anos. Amigo leitor: você seria capaz de esperar tanto tempo pelo amor da sua vida? Confesso sinceramente que não sei se teria esta capacidade, mas sei que a narrativa está inclusa na Bíblia e dela tiramos grandiosas lições. 

Voltemos à prática  da espera nos dias atuais. Agora com outra Rakel! Falo da cronista do Rio Grande do Sul de nome Rakel Tambara. As suas palavras são verdadeiras demais e merecem ser colocadas aqui na íntegra. Diz ela: “Fila de banco, do INSS, do consultório médico, do cabeleireiro, do emprego... Se for em pé então, nem se fala. Pior só se for no sol, com calor, com frio, enfim. Somos movidos a necessidades básicas. Dificilmente ficamos em estado de relativa normalidade emocional com fome, sede, temperatura inadequada. Em condições de plena saúde, a ausência de conforto físico já é suficiente para nos tirar do prumo. Com dor é desgastante esperar principalmente se estamos falando das filas em busca de atendimento médico.”

E não deixo de acrescentar: nem vou falar aqui de atendimento público. Com consulta marcada você pode ficar “plantado” aguardando atendimento no consultório até a hora que o médico bem entender, mesmo que você esteja pagando. E se você tem algo urgente a resolver após a consulta, está “frito” sem gordura. Não marque compromisso com este enredo...

Mesmo assim, tenho que concordar com a amiga do sul: “Ao subirmos na escala da independência financeira, achamos que o nosso tempo de espera tem que ser menor que o daquele que tem menos dinheiro que nós.” Aqui já entra o egoísmo e a soberba do homem na história, que discutiremos oportunamente. Só acrescento que entre as mais angustiantes experiências da nossa vida está o gesto de esperar que alguém se restabeleça após uma doença ou acidente grave. Um pai, um irmão, um avô... Quem já passou por isso, sabe como é.

Há um provérbio chinês especial para esta crônica: “Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier.” Sendo assim, repasso ao leitor o maior presente que recebemos continuamente. Minha profunda gratidão ao Criador que me permitiu e está permitindo viver os dias do calendário de 2010. É egoísmo pedir muitos anos pela frente. O ideal é solicitar um de cada vez!

Deus sabe das nossas necessidades.

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